Pesquisar este blog

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Saturação


Nas últimas férias da Universidade tive a oportunidade de participar de um programa de trabalho escravo nos Estados Unidos, por quase quatro gelados meses. Para minha sorte, algumas pessoas não se esqueceram do pequeno Junior. Na volta, recebi um ótimo presente da minha querida Tia Nedi. (Aliás, ela é em grande parte responsável por esse meu vício de ler. Não há como não ser influenciado pela mágica biblioteca da Tia Nedi! Passar a infância e a adolescência fuçando naqueles livros me moldou em parte.) Não sei como ela adivinhou que eu iria gostar do presente: um livro!

Pois bem. Recebido e devidamente lido. Bom, inclusive. Tanto que vou falar um pouco sobre o tal.

Trata-se de “Saturação”, escrito pelo francês Michel Maffesoli. Sociólogo, professor da Université de Paris-Descartes – Sorbonne, é considerado um dos fundadores da sociologia do cotidiano e conhecido por suas análises sobre a pós-modernidade, o imaginário e, sobretudo, pela popularização do conceito de tribo urbana. Dentre outras qualificações, é também um ótimo escritor.

Confesso que a leitura foi demorada, dada a densidade do conteúdo e minha inabilidade com textos excessivamente filosóficos. Mas, como toda tentativa é válida e devemos nos concentrar na absorção de algo proveitoso, consegui extrair algumas idéias bacanas e que gostaria de compartilhar. 

De uma forma geral, o texto trata sobre uma nova forma de se ver o mundo, a sociedade e a cultura. A vida em si. Como pista dada pelo título, a cultura que os mecanismos dominantes e formadores de opinião insistem em sustentar está saturada. É inegável que estamos em outro contexto, em uma nova realidade. Mas insiste-se em “adaptar” uma cultura que já não há como ser modificada, fruto dos séculos passados.

“Esquecendo progressivamente o choque cultural que lhe deu origem, a civilização moderna homogeneizou-se, racionalizou-se em excesso. E é sabido que “o tédio nasce da uniformidade”. A intensidade do ser perde-se quando a domesticação foi generalizada.”

Mais do que uma ótima análise da cultura pós-moderna, como cita o autor, o texto estrutura-se em uma bela crítica desta sociedade em processo de reconstrução. Além disso, é uma ótima ferramenta de estímulo a uma “revisão” de nossa própria conduta.

O pensamento mecânico raciocina, o orgânico, ressoa. Ele participa da palavra coletiva, do que é “dito” na retórica da vida de todo dia. Diferentemente das palavras ocas, encantatórias e sem sentido (coisa que, com muita frequência, é considerada como sendo uma análise), a palavra orgânica se dedica a unificar, reunir, sublinhar o que se entrepertence: a vida no que ela tem de holística.”

A obra não é extensa (109 páginas), mas é extremamente rica. Conteúdo indubitavelmente de qualidade. Embora não tão simples, é o tipo de pensamento que deveria ser promovido, divulgado, discutido em salas de aula.

Fico por aqui no texto de hoje, fechando esta postagem com mais um ótimo trecho do livro:

“Talvez além desses valores ativos, ou mesmo ativistas, os da construção do controle e da dominação (de si e do mundo), seja preciso saber retornar ao nada fundador, ao vazio natural, ao dado protetor e matricial. É a isso que chamei de invaginação do sentido. Além do substancial, do ser que é nominado, ou seja, além de entidades estáveis e seguras delas mesmas: Deus, Estado, Instituição, Indivíduo, curioso retorno de uma aspiração ao vazio criador. Isso não deixa de inquietar. Pois toda a educação moderna constitui em domar, bem cedo, a juventude e dela extirpar todo aspecto natural, toda selvageria. A tirar tudo que é da origem, portanto original.” 

Leiam! Mais do que isso: promovam a leitura de qualidade, construtiva. Estimulem a busca pelo que há de “original” dentro de cada um de nós. 

Abraços!

O livro faz parte de uma coleção promovida pelo Itaú Cultural, sob o selo da Lei de Incentivo à Cultura, e é editado pela Iluminuras.

Saturação. Michel Maffesoli. Iluminuras: Observatório Itaú Cultural, 2010.

3 comentários:

  1. Wow, what an interesting title to read! Wise choice of your aunt!

    Indeed, being "original" has its costs, because the society we're living doesn't value much the "original" ones. On the contrary, if we don't follow certain tendencies, if we don't belong to any kind of "association", we may not succeed!

    Isn't it funny? On one hand there's lots of fuss in the media and other ways of "educating" people, saying that we must see "the different ones" as being the same. And on the other hand,
    the ones who think or behave differently are put aside!

    Who's gonna understand what attitude is better?
    Maybe we are really saturated of conditions under which we're supposed to live: be the best one, the perfect one, the one who will bring better and happier days for the others!

    As if that was possible!

    Perhaps Mr.Maffesoli is right, we should empty our minds, trying to rebuild our ways of thinking and our concepts of what life is!

    Thank you for this great suggestion!

    ResponderExcluir
  2. Obrigado pelos seus comentários, que nunca falham. São um grande estímulo para mim. =)

    ResponderExcluir
  3. Reading your posts has being always a pleasure, for many reasons: first of all, you know how to use the words in a way to arise the reader's curiosity. Secondly, you don't follow any specific kind of literature, what shows exactly the excellent reader you are! And most important of all, you don't pretend to be somebody you are not, on the contrary, even in your comments you're honest!

    Keep on doing so and you'll reach that peaceful state of mind every one fights to get!
    Cheers!

    ResponderExcluir