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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Vale da Morte: o Contestado visto e sentido


“Enquanto os corpos jaziam sobre o leito gelado do rio, suas águas correntes faziam a limpeza das vísceras, o caldo vermelho seguia por quilômetros e todos podiam saber, pelo sangue na água, que muitos estavam morrendo em Santa Maria. Há quem diga não ser o Contestado uma Guerra.”
Mais que isso: há quem não saiba da existência da Guerra do Contestado! Por este motivo interrompo a sequência das postagens relativas ao Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. É o mínimo que posso fazer pela memória dos caboclos e soldados que deram suas vidas neste conflito. É pouco, sim, mas é algo.
Imensa foi a felicidade ao deparar-me com o pacote sobre a mesa de meu quarto, há alguns dias, cujo remetente indicava o nome do caríssimo Nilson Cesar Fraga. Inesgotável estudioso da Questão do Contestado, Nilson é geógrafo, Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Tive o prazer de trocar com ele algumas palavras, certo dia, pelos corredores da Universidade Federal do Paraná.
Apaixonado (porém ainda aprendiz) que sou pela história de minha terra, não pude esperar. Em poucos dias devorei-o. Vale da Morte: o Contestado visto e sentido – “Entre a cruz de Santa Catarina e a espada do Paraná” é o seu título. São relatos de viagens feitas pelo autor (com seus alunos e amigos) por todo o território outrora chamado de Contestado. Posso descrevê-lo como uma sequência de surpresas. Seja pelas revelações quanto à grandiosidade do conflito, seja pelo espanto de descobrir o quão pouco sei sobre a Guerra, mesmo que tenha começado a ler sobre ela lá pelos meus 13 anos de idade.
A habilidade do autor em descrever as situações e cenários faz com que nos sintamos como parte do acontecimento. Mais que simples acontecimentos, narram-se aventuras. Com linguagem direta, embora não menos graciosa, Nilson proporciona o acesso popular à leitura, diferentemente de grande parte das obras sobre o Contestado, de cunho acadêmico. É como que um reflexo do homem do Contestado: simples, porém “grande”.  
O livro é uma boa opção àqueles que querem entender superficialmente o conflito, os motivos que o provocaram e, sobretudo, o espaço onde este ocorreu. O breve conhecimento da questão facilita a compreensão dos fatos narrados; caso contrário, ao final da obra tem-se um capítulo dedicado à sua explicação.
Não posso deixar de elogiar a capa. Confesso, uma das mais belas que vi, talvez por meu fascínio pelo esplendor da Araucária. Aliás, árvore esta um dos principais personagens da Guerra. Por quê? O livro vos explicará...
Vale da Morte não é apenas um livro. É um esforço em prol da memória da Guerra do Contestado, um dos mais intensos conflitos ocorridos no Brasil, mas muitas vezes omitido de nossos livros didáticos, ou subjugados em importância e abrangência.
Como dizem as sábias palavras de nosso querido Vicente Telles, “o Contestado é a voz do passado falando ao presente, alertando o futuro.” Atendamos ao alerta, como Nilson o tem feito.
 Um abraço, e boa leitura.
P.S.: Aos que se interessarem, o autor possui um site onde estão listadas suas obras, inclusive contando um pouco sobre este livro. http://www.nilsonfraga.com.br/