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sábado, 19 de junho de 2010

O Massacre (da dignidade humana)


Ainda não estou convicto de qual seria a melhor forma para definir Deus. Indefinível, talvez. Estou convicto de sua existência, sim, mas em processo de construção de uma idéia fixa, definitiva, que satisfaça minhas questões existenciais. O que posso afirmar é que não sou “religioso”, mas sim espiritual. Apesar disso, agradeço a Ele diariamente pela fortuna de ter nascido em um ambiente que permitiu meu crescimento pessoal e, sobretudo, a sobrevivência. Mesmo com todas as dificuldades comuns aos homens (brasileiros, em especial), estou a anos-luz da infeliz marginalidade social a que é submetida grande parte da população. Falo isso após ter lido uma breve descrição do conflito ocorrido em Eldorado do Carajás, no Pará, em 17 de abril de 1996. Independentemente de quem tenham sido os culpados, responsáveis, ou realmente o estopim do conflito (deixo isso a cargo de quem for ler esta obra). A condição de miséria, a manifestação da pobreza pela sua pior face, aliadas a questões culturais, fazem com que o ser humano permita desaflorarem seus mais selvagens instintos. Não é apenas questão de educação. De que adianta um livro a alguém de estômago vazio? A satisfação das necessidades da alma estão sim aliadas às fisiológicas. Da mesma forma, o lado militar do conflito é o reflexo da má remuneração e do despreparo psicológico das instituições reguladoras da ordem civil. Dê uma arma a um policial, e ele fará dessa uma ferramenta para colocar um prato de feijão e arroz na mesa para seus filhos. Se não nas formas legais, que sejam nas ilegais. Essa é a triste realidade. Deixo claro que sou apartidário, mas ao tomar conhecimento de histórias como a relatada em “O Massacre – Eldorado do Carajás: uma história de impunidade”, de Eric Nepomuceno, vejo a importância das políticas sociais, tão profundamente criticadas nessas épocas eleitorais. Sim, como em todas as situações, há quem tire proveito disso tudo, mas deixemos a cargo de suas consciências. Para nós, privilegiados, é uma questão da quantidade de dígitos que elas representam no orçamento do governo. Para os miseráveis, até então sem oportunidades, é questão de sobrevivência. É remediação de conflitos como o de Eldorado. É estímulo para seguir adiante. Não sejamos egoístas. Fico mais feliz em ver meus impostos convertidos em cestas-básicas que em passagens aéreas para deputados e senadores. Enfim, para aqueles que querem entender um pouco mais sobre a história recente brasileira, é um bom livro. Sobretudo àqueles que, como eu, tiveram a oportunidade de nascer em um lugar onde um prato de comida jamais foi uma dúvida, e tem incutida (felizmente, já não tenho mais) em sua mente a idéia de que a pobreza é apenas uma questão de opção, e não de destino.

Deus permita que disseminemos a verdade, sempre em busca da propagação do bem.

E façamos do conhecimento a nossa arma contra a impunidade, levando-o aonde muitas vezes a única coisa que chega é a esperança (muitas vezes acompanhada da incerteza).

Faça caridade. Ajude os menos favorecidos. Cobre de seus representantes. É o caminho para construírmos um mundo melhor.

Um abraço, e boa leitura.

O Livro: O Massacre – Eldorado do Carajás: uma história de impunidade. Eric Nepomuceno. Planeta, 2007.


Lendo no momento: Uma vida com Karol – Memórias do secretário particular de João Paulo II. Cardeal Stanislaw Dziwisz, em conjunto com Gian Franco Svidercoschi. Objetiva, 2007.

7 comentários:

  1. Muito bom!

    É muito importante tentar passar para as pessoas não fazerem desse sentimento, o de "nascer em um lugar onde um prato de comida jamais foi uma dúvida", de você como pessoa, um ignorante.
    A medida que mais nos tornam as coisas facilitadas, prontas, a capacidade de compreensão vai diminuindo.
    Ao invés do sentimento de apoio e construção de uma situação melhor, vem o sentimento de repreensão e ódio.

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  2. Vilson,
    Embora não seja um texto de caráter "religioso" de forma estrita, impossível não dizer amém para suas palavras.
    A Bíblia tem uma expressão interessante para religião "pura e sem mácula": visitar os órfãos e as viúvas em suas necessidades (Tiago 1, 27).
    Que nossa oração seja mesmo essa sua: disseminar a verdade, em busca da propagação do bem.
    Um abraço e a paz!

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  3. Muito bom que mais pessoas compreendam que miséria e pobreza não são itens opcionais na vida de algumas pessoas, e sim um legado de injustiças e desigualdades sociais, quem sabe um dia não teremos mais a segregação Regional no Brasil onde se diz que no norte e nordeste só há pessoas preguiçosas e sem vontade. parabéns amigo..........ah e o livro é sim muito bom, recomendo, valeu

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  4. Primeira pessoa de Ipumirim que eu vejo falar bem dos programas assistencialistas do governo. Já tive fase de não os aprovar, mas quando se pensa profundamente o assunto, analisando todas as variáveis que nos é possível tomar conhecimento sem viver o cotidiano da necessidade, percebemos o quanto são necessários.
    E daí se tem 20 pessoas entre 1000 que vão receber 50 reais de camionete à diesel?
    É uma quantidade praticamente irrisória diante dos outros 980 que conseguem alimentar uma família com esse valor.

    Abraço meu velhinho.

    Diego Porto''
    @ddiegoporto

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  5. Grande Diego!
    Infelizmente lá tem-se essa idéia, pois não há pobreza no pior nivel ou, se há, não é tão pronunciada. Basta saírmos daquele "mundinho" para conhecermos a triste realidade, onde esses 50 reais fazem sim a diferença. Para aqueles que se aproveitam, eu só tenho a desejar sorte, e que eles encontrem o caminho correto.

    Paz!

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  6. Muito bom o texto Vilson! A pobreza concerteza não é uma opção até porque não é nem um pouco confortável. Quanto aos programas assistencialistas, acho que o governo se viciou neles, não o povo. A intenção no início até que é boa mas depois disso pessoas do poder começam a se aproveitar disso.

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  7. Since men started living in societies, we've been having social, cultural, behavioural inequalities, which have been causing conflicts, even wars! All around the world we've seen power against weakness, smartness against ingenuity, wealthy against poverty. For what? For getting the control, for being in command, for feeling like God! Once we become conscious about that, we cannot pretend ignorance anymore, for consciousness means responsability! So, we, the priviledged ones, as you said, must play our parts to try diminishing these inequalities, whenever the opportunities arise.
    Keep on reading and writing, to inform more people about these things, spreading the will to change this life into a better one!

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